Trabalho Missionário em Palmópolis – Vale do Jequitinhonha - MG

 

 

"O melhor lugar do mundo é onde Deus me quer". São José Freinademetz

Trabalho Missionário em Palmópolis – Vale do Jequitinhonha - MG

 

 

 

Introdução

Solidárias na busca de “Mais Vida” para tod@s, integrantes de uma Congregação missionária, com o incentivo da Igreja Católica na formação de CEBS e sensíveis ao mandato de Jesus “Vão pelo mundo inteiro e anunciem a Boa Notícia para toda a humanidade”, partimos para junto aos pobres e esquecidos pela sociedade e, em parte, abandonados pela própria Igreja.. Fomos com a ousadia de acreditarmos no projeto do Reino anunciado por Jesus, com o olhar para o mundo desumanizado e cruel, a fim de despertar na comunidade o valor da vida. Sustentadas pela fé, enfrentamos todas as barreiras. Acolhemos a possibilidade aberta por Cristo de transformar a situação vivida numa expressão de amor e doação de nós mesmas, com muita abnegação.
Este pequeno histórico reúne alguns fatos concretos da realidade em que vivemos junto a um povo bom, correto e indefeso, ameaçado pela injustiça e opressão de todos os lados.

Um pouco da realidade


O Vale do Jequitinhonha divide-se em: Alto, Médio e Baixo Jequitinhonha. Rubim e Palmópolis fazem parte do Baixo Jequitinhonha, que se caracteriza por grandes propriedades de terras destinadas quase que exclusivamente ao gado de corte, e por isso, também é chamado de Setor do Boi, enquanto que o Alto Jequitinhonha é denominado Setor do Eucalipto e o Médio, onde passa a BR 116, Setor do Caminhão. 
A região do Vale é conhecida, o que é confirmado pelas estatísticas, como uma das áreas de maior pobreza do Brasil. Porém, o Vale é rico em natureza, pois suas terras, em geral, são férteis e suas águas de boa qualidade, por vezes, formando pequenas cachoeiras são atraentes lugares de lazer. Como em geral tais recantos são de difícil acesso, na sofreram ainda nenhuma exploração. Todavia, investimentos sociais limitados e ganância de alguns donos de terras apoiados num modelo escravista, causaram, ao longo dos anos, o enriquecimento de uns poucos, em contraste com a extrema pobreza da grande maioria da população local.
Portanto, a raiz de tanta pobreza não é a seca, nem a terra improdutiva e tanto menos a preguiça do povo, como muitos afirmam, porém, a má distribuição da terra e a herança de um escravismo, que mantém um regime de dependência e não dá direitos à cidadania O gado é o rei das vastas extensões de terras e não dá lugar ao agricultor. Quando o patrão permite ao agregado fazer alguma rocinha é só nas piores áreas da fazenda como no alto dos morros, que não serve para o capim e onde há água, ou então, nos brejos. Nesse caso, o agregado arranca no cabo da enxada a tabua ou o lírio do brejo ou ainda outras ervas daninhas, com sacrifício enorme. Depois de tudo limpo e um ano de plantio, o padrão pede de volta a terra preparada para plantar braquiara, o capim para o boi.

Mão-de-obra, as fazendas oferecem pouca, pois o gado fica solto e se alimenta só do capim. Os pastos, infelizmente, são tratados somente com a queimada, destruindo com isso a boa qualidade da terra. Assim, o agregado vive em condições precárias, sem escola e nem assistência médica para os filhos e filhas, pois as fazendas onde vivem e trabalham ficam distantes da sede dos municípios. Muitas vezes quando adoecem, são orientados a ir morar na cidade vizinha, perto de recursos médicos, porém,em regra, não se lhes oferece nenhum recurso de sobrevivência. Há uns anos atrás, com o surgimento da Lei do Usucapião, a situação piorou para os trabalhadores, pois, os donos de terras, temendo ser levados à justiça, dispensaram muitos agregados, os quais foram obrigados a se retirar das terras onde já residiam há muitos anos e onde tinham também constituindo sua família.


Na época, existiam na região também alguns pequenos proprietários de terra; que tiravam dela o seu sustento e vendiam o restante na feira livre, o que grandes proprietários e comerciantes compravam a preços baixos. Isto porque, os pequenos agricultores, em geral, não têm condições de armazenar. Sendo que a grande maioria já tinha contraído dívidas no comércio, o jeito era vender a plantação ainda verde.

Apelo da Igreja local


A primeira missão das Missionárias Servas do Espírito Santo na região foi em Rubim, município do Baixo Jequitinhonha, aonde chegamos em fevereiro de 1976. A situação dos católicos era de fato a de “Ovelhas sem Pastor”.
Quando dom Silvestre Luiz Scandian foi nomeado bispo da diocese, em 1975, vendo-se diante da situação em que aquele povo de Deus se encontrava, pediu a colaboração de várias congregações religiosas, entre elas das Missionárias Servas do Espírito Santo. A provincial, Ir. Mariclara Nunes, juntamente com Ir. Verônica, pôs-se a caminho rumo ao Vale, mais precisamente a Rubim, local apresentado pelo Bispo para ser a nossa primeira estação missionária na região. Já sabíamos um pouco sobre realidade da área através de um relatório apresentado por D. Silvestre. Porém, depois de ver e sentir pessoalmente o sofrimento daquele povo, cujas fisionomias expressavam o grande abandono e a necessidade de apoio tanto no espiritual como no social; não restou mais dúvida de que aquela seria para nós uma área prioritária de missão.

Enfim , a nova missão
Assim que a missão foi assumida pela Congregação, logo surgiram as primeiras candidatas, as Irmãs Alexandra Maria, Anastásia e eu, Verônica. A Ir. Anastásia chegaria somente mais tarde, em setembro, pois estava com a mãe enferma.
Aos 14 de fevereiro de 1976, de madrugada, partimos do Convento Ir. Alexandra e eu rumo ao Vale do Jequitinhonha. No dia seguinte, partimos para Rubim, a tão esperada missão, acompanhadas pelo .Bispo, onde o povo nos acolheu carinhosamente.
Uns dias após a nossa chegada, realizou-se uma reunião, com a presença de D. Silvestre, do Pe. Silvano Nóbili, que era o vigário, e de nós, Irmãs recém-chegadas com a liderança local. Após ouvirmos os anseios e as propostas do povo, foram constatadas três prioridades:
- Presença das Irmãs não só em Rubim, mas também nos municípios de Rio do Prado e de Felizburgo;
- Assistência à saúde popular (alternativa) e no Hospital administrado pela diocese, que estava em situação precária;
- Educação religiosa, também a Educação Religiosa na Escola, pois disseram que o povo estava muito sem fé.. 
No início morávamos na casa Paroquial, sozinhas, pois o Pároco não morava lá e sim na sede da diocese, em Almenara. Com a nossa chegada, porém, Dom Silvestre transferiu o Pe. Silvano para Rubim. Assim, ficamos nós, Irmãs, morando sob o mesmo teto que o Padre, depois de algumas adaptações na casa, por orientação de D. Silvestre e da Provincial, Ir. Mariclara. Entretanto, dentro de pouco tempo Ir. Alexandra, por motivos pessoais, precisou deixar a missão. Nessas alturas senti-me só na nova tarefa. Receava, o que seria muito natural naquele tampo e diante aquela situação toda, que o Conselho Provincial me solicitasse o abandono da missão, por estar só.
A pastoral rural, no início, assumi fazendo os “giros”com o Padre pelas comunidades. Mais tarde chegou a Ir. Anastásia e assumiu conosco esse trabalho. 
A parte da saúde que a Irmã Alexandra, enfermeira obstetra assumiria, não se realizou, pois ela não chegou iniciar o trabalho.
No ano seguinte chegaram as Irmãs: Maria Dulce, que assumiu o hospital fazendo parte da coordenação e Maria Amália, que assumiu o ensino religioso na Escola. Ambas assumiram ainda Pastoral urbana.
A Pastoral em Rubim, assim como no Vale todo, encontrava sérios desafios, de acordo com o que já foi comentado anteriormente, por causa da grande desigualdade social, em que uns têm demais e outros quase não têm para sobreviver.

Enfrentando as adversidades


A situação do povo, em geral, era realmente precária, via-se privado do mais necessário: luz elétrica, água enganada e o mínimo de conforto. A riqueza maior que possuía eram os muitos filhos e o rio beirando a Vila. Algumas famílias mais abastadas aproveitavam de pessoas humildes para fazer tais serviços, as quais trabalhavam o dia todo, recebendo em troca um canequinho de arroz cru ou outra coisa insignificante que não dava, de longe, para a família sobreviver. Muita gente passava fome. As salas de aula improvisadas dentro de um salão, eram separadas por uma cortina e sem as condições necessárias e humanas para o funcionamento. Muitas casas eram feitas de pau a pique, cobertas por lona e, quase nada por dentro. As camas eram de madeira roliça com uma esteira fina por cima, ou simplesmente colocadas no chão puro de terra batida. A igrejinha feita de adobe estava para cair. 
Vendo toda essa situação social, unida à preocupação com a evangelização, começamos a refletir seriamente, pois não nos limitaríamos à doutrina e sacramentos da Igreja, queríamos ouvir os clamores do povo. Fizemos reuniões, também com as autoridades civis, e discutimos juntos os problemas de difícil solução. Assim, em plena segunda feira, de repente, brota água dos canos nos chafarizes das ruas da Vila, coisa que nunca tinha sido vista por muita gente. Assim as coisas foram acontecendo e muito devagar a situação foi melhorando, em conseqüência de muita reunião e luta.

O surgimento de uma nova Comunidade


A idéia da comunidade das Irmãs em Palmópolis foi surgindo em decorrência da situação de necessidade geral do povo. Além disso, as distâncias e estradas ruins tornavam o acesso a Palmópolis muito difícil. Gastava-se muito tempo nas estradas, além de serem viagens dispendiosas.
A sede, Rubim, ficava totalmente fora do centro da paróquia. A maioria das CEBs localizava-se ao redor de Palmópolis, por ser este um distrito onde ainda existiam muitos pequenos proprietários de terras, os quais residiam nelas, aí mesmo criaram a família, além de permitirem que outras famílias morassem em sua propriedade. Isso tudo ocasionou a formação de pequenas aglomerações de moradores, possibilitando o surgimento de vários núcleos de CEBs. Palmópolis está enforcada entre dois grandes Estados: O nordeste do estado de Minas Gerais, ao qual pertence e o sul do Estado da Bahia, o que talvez motive o descaso por parte dos dois Estados, e com isso, concentra um grande número de empobrecidos.
Considerados os motivos contemplados, o conselho provincial também decidiu ver a realidade mais de perto. Também o Bispo era da opinião que Palmópolis seria mais central para nosso trabalho e disse que aquele povo sofrido merecia uma nossa presença maior, residindo lá. Isso foi um sinal animador nesta batalha. 
E agora, quem iria iniciar a comunidade? Bem, eu já era voluntária. Mais tarde surgiu, em Belo Horizonte, a segunda candidata, a “jovem” Ir. Águeda de 72 anos de idade, porém com muita garra. Realmente, Palmópolis iniciou com instrumentos frágeis: A Ir. Águeda com idade avançada e eu, com o pulmão fraco. Mas, “Deus escolhe o que é fraco para confundir o que é forte”.
Enfim, dia 13 de fevereiro partimos de Rubim para Palmópolis, de ônibus, com nossas poucas bagagens. Eram três horas de viagem. Chegamos ao anoitecer, em silêncio; descarregamos a mudança, ajeitamos algo para comer e nos deitamos bem cansadas, porém felizes.
Ir. Águeda foi tomando contato com a catequese e celebração da Palavra, o culto. Iniciou também um grupo de mulheres para pintura em tecidos. Assumiu a coordenação e orientação da horta comunitária que estava iniciando. Nestas alturas a “Associação Amigos de Palmópolis”, já estava em pleno andamento, com a aprovação de seus Estatutos, o que significava que podíamos fazer projetos a Entidades Governamentais e outras, para alguma iniciativa produtiva.
O que mais se ouvia do povo era que desejavam ter um pedaço de terra para plantar. Na diretoria, decidimos começar ver esta possibilidade, o que não nos parecia fácil.

“Terra para quem nela trabalha”. – Uma experiência que deu certo.

Conscientes, de que a terra é de quem nela trabalha, e que a terra nas mãos do agricultor resolvia, ou, ao menos amenizaria a precária situação, “arregaçamos as mangas” e partimos em busca dela. Parecia loucura.
A primeira tentativa foi a procura de um pedaço de terra para arrendar. Nessa busca tivemos só aborrecimentos. Os fazendeiros vieram ao nosso encontro para oferecer terras de brejos, (alagados), que, para cultivar exigem pesado trabalho de drenagem. Ofereciam também os cumes dos morros, onde nem o capim cresce, oferta essa que também não pôde ser aceita, pois, observamos que queriam aproveitar da nossa Associação “Amigos de Palmópolis” como meio, de explorar ainda mais os pobres, e isso nos indignava. Partimos, então, para algo mais arrojado, porém mais seguro: Comprar um pedaço de terra. Enquanto se procurava alguém que quisesse vender, encaminhamos projetos para conseguir dinheiro para a compra.

Uma data memorável


Enfim, surge a primeira oferta com algumas vantagens. O vendedor, Sr. Jovelino, era pessoa de confiança, pertencia à comunidade e estava a fim de colaborar. A terra ficava encostada na Vila, o que favorecia muito aos agricultores, todos moradores dela.
Não havia tempo a perder, pois já era tempo de começar o preparo da terra. Aos 23 de agosto de 1981, numa reunião extraordinária da “Associação Amigos de Palmópolis”, decidimos comprar a terra, que media três alqueirões (alqueire mineiro), ou seja, 58,12 hectares. Formou-se, logo, uma equipe provisória para coordenar a divisão em tarefas e a seleção dos mais pobres entre os pobres. (Uma tarefa mede 189m2). Os agricultores sem terra não se continham de alegria.
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Desafios e imprevistos surgiram no decorrer do projeto. Os agricultores não estavam acostumados a cuidar de terra própria, pois nunca haviam possuido seu próprio chão. Isto era dar um passo no escuro. O tempo entre o preparo da terra, plantio e colheita é longo, o que fez com que muitos começassem a passar necessidade. Com isso, ficaram divididos entre ir buscar trabalho nas fazendas, o que lhes impediria de prepararem a terra e cuidar do próprio chão, com o risco quase certo de passarem por privação até a colheita. Outro problema que pode até parecer incrível era que a maioria dos agricultores não tinha sequer uma enxada para arrancar o capim e tantas outras ervas daninhas, porque sempre usavam a ferramenta do padrão. A ASSOAP (Associação Amigos de Palmópolis) teve que comprar ferramentas e também sementes para o início do plantio. Além de tudo isso, ouviam-se dos patrões, comerciantes e até de outras pessoas observações desafiantes como: “Vocês estão muito enganados com este povo; eles vão vender logo a terrinha, para irem à cidade procurar vida boa. Eles são preguiçosos, cachaceiros, não querem nada com o trabalho”. Tais preconceitos manifestos contra os pobres, sabíamos muito bem, eram uma tentativa desesperada para que eles ficassem sempre na situação de dependentes, a fim de salvaguardar a mão de obra barata. Outro problema sério era que muitos estavam desnutridos e doentes, não agüentariam de fato arrancar o capim e os tocos. Foi preciso tratarem da saúde para depois poderem trabalhar. Em conseqüência disso, surgiu a necessidade de encaminhá-los ao médico, que encontraríamos apenas em outro Município além de cuidarmos de algumas cestas básicas para eles. O pessoal da diretoria não tinha prática para lidar com esse tipo de projeto; foi difícil até encontrar alguém que cuidasse da parte financeira e que secretariasse..
Como se pode muito bem compreender, foi uma decisão difícil diante de tantos problemas, porém, muito maior foi a recompensa ao ver a alegria estampada nos rostos de tod@s que pisaram pela primeira vez em cima de um pedacinho de chão que era del@s, onde podiam plantar e colher, sem precisar entregar a metade ao padrão. 
Esse primeiro pedaço de terra foi dividido para sessenta famílias, as mais pobres entre os pobres. Logo na primeira reunião dos beneficiados, foi comovente quando uma mulher chegou perto de mim e disse: “Agora Irmã, eu não preciso mais vender meu corpo para criar meus filhos, para isso tenho agora a minha roça”. Logo depois da primeira safra, ouvia-se também: “No cantinho da minha cozinha, sempre tem um monte de alimentos; temos fartura; ninguém mais precisa passar fome; minhas filhas não precisam mais trabalhar em casa de famílias ganhando quase nada, ou em troca de um prato de comida; depois das roças, não se vêm mais caixôezinhos de inocentes subir quase toda semana, uma vez ou mais, para o cemitério; não se vêm mais crianças nas portas das casas pedindo ajuda; pouca gente está indo para São Paulo em busca de emprego”. Havia também reclamações dos bem situados, como: “Depois que as Irmãs chegaram em Palmópolis, não se consegue nem um garoto para levar a bagagem da gente quando se chega de ônibus; está até difícil encontrar camarada para os trabalhos nas fazendas, estão cobrando muito para a diária de serviço. Isso acontece também com empregada doméstica”.
Os comerciantes também perceberam a diferença e diziam que agora o comércio tinha melhorado, porque os pobres compravam mais. Todavia, eles tiravam a sua “fatia” em proveito próprio: Vendiam, na “caderneta” (fiado) e mesmo antes da colheita já exigiam o pagamento, propondo que o agricultor vendesse a produção ainda no pé, a preço baixo, de modo que, ao colher sobrava-lhe muito pouco. Para resolver esse problema, tentou-se organizar uma cooperativa, mas, o maior problema nesse sentido era a desconfiança do próprio agricultor que, acostumado a ser explorado, não confiava nem nos próprios parentes e nem na direção da Associação. Essas coisas foram as que mais nos pesaram.

A Ir. Áqueda sempre foi uma missionária que vibrou pelo Reino de Deus e acreditou no que fazia. Infelizmente, por problemas de saúde, dificuldades de locomoção e falta quase total de meios de comunicação, ela começou a sentir angústia e solidão. Entrou em contato com a provincial pedindo para voltar a Belo Horizonte. Foi pouco tempo que ela permaneceu em Palmópolis, porém deixou marcas profundas e positivas; o pessoal até hoje, após 22 anos ainda a admira.
Nestas alturas fiquei mais uma vez só, com Deus e o povo por mais de um ano. O andamento da ASSOAP consumia a maior parte do meu tempo e de minhas forças. Para a parte religiosa, felizmente havia lideranças leigas, as quais vinham sendo acompanhadas por nós na formação há alguns anos, desde que chegamos a Rubim. A ASSOAP continuou em bom ritmo de crescimento, surgindo sempre novas oportunidades de realizações em benefício do povo. 
No início de 1983 chegou a Ir. Giselda, com muita garra e vontade de caminhar junto àquele povo. Ela optou por ficar mais com a parte religiosa da Vila de Palmópolis e com a assistência às comunidades do interior (da roça) e povoados, enquanto que eu continuei com a Associação, que já era um trabalho muito abrangente.

Experiência da Irmã Giselda

Meus olhos viram, meus ouvidos ouviram e meu coração sentiu de perto essa tremenda realidade. Foi no final de 1982 que eu fiz uma visita rápida para conhecer a missão. Ao nos aproximarmos da vila de Palmópolis, no ônibus, uma jovem muito simpática, Maria Bela, se aproximou de mim e perguntou: “A senhora é a Irmã que vem para ficar conosco?” Eu respondi que estava vindo para conhecer, conforme fosse voltaria para ficar. Senti nela um carinho especial e uma acolhida agradável que já me deu vontade de ficar. É o coração puro e simples do povo cheio de boas perspectivas, porém oprimido.
No início de fevereiro do novo ano voltei com a minha “trouxa”. Foi uma alegria para nós duas Irmãs, Verônica, que já trabalhava no Vale e eu, com o coração cheio de esperanças, não ignorando porém as dificuldades que certamente nos aguardariam. As acolhidas espontâneas do povo me entrosaram logo na comunidade. Realmente, fui para a missão convicta, a fim de trabalhar entre este povo querido e sofrido. Ainda não havia me acomodado direito que já chega a diretora do Colégio lá em casa, suplicando para que eu assumisse o Ensino Religioso da 5ª à 8ª série. Resisti muito, pois não havia cursado magistério e sim técnico de contabilidade. Nem tinha algum curso de pedagogia, só algumas práticas pastorais, um curso de teologia e alguns pequenos cursos catequéticos que me poderiam servir. Não foi fácil; comecei com apenas cinco aulas semanais e terminei com dez. Criei muito amor a esse trabalho, pelo qual me doei incansavelmente, ao lado das Pastorais da Igreja na Vila, nos povoados e nas comunidades rurais.

A ASSOAP também dá novos avanços 


Com minha chegada, Ir. Verônica pode dedicar-se mais aos trabalhos sociais. A farinheira manual que existia foi substituída pela compra de uma industrial. “Um elefante branco”, dizia Verônica, coçando a cabeça quando vê a realidade. A coisa foi grande demais, o que não era previsto, nem tinha infra - estrutura para tal. Correu-se o risco de montá-la. Mas a notícia correu por toda à parte. Que progresso! Foi dado início aos trabalhos, o que proporcionou trabalho para muitas pessoas. Também não faltou quem se aproveitasse da situação, por exemplo, tentando empregar toda a família. A nova aquisição só podia funcionar periodicamente, por falta de matéria prima. Mas serviu muito. Seu funcionamento total não durou muitos anos, porem até hoje, 20 anos depois, partes dela continuam servindo sempre ao povo pobre, ao lado de torradeiras manuais para a farinha. Em certas épocas do ano funciona quase que dia e noite, quando as famílias vão tirando a goma (polvilho) para fazer os biscoitos da festa de São João, para a qual vêm todos os parentes e amig@s, que migraram para os grandes centros urbanos. É a maior festa do ano na região, com muitas fogueiras e fogos de artifício.. É festa familiar e muito animada, com visitas e diversões.
Ao comprar aquela farinheira surgiu a necessidade de um meio de transporte para buscar a matéria prima e levar a farinha ensacada para o mercado de consumo. Vai de novo a “Abelhinha”, como Ir. Verônica era chamada, a procura de novos recursos. E, como Deus sempre está atento aos pequeninos, em São Paulo uma Paróquia e algumas pessoas estenderam a mão. O caminhão aparece. Foi muito útil por muitos anos. 
A creche, que acolhia muitas crianças de zero a sete anos e fornecia a elas alimento, orientação pedagógica, sanitária e humana recebeu o nome de “Abelhinha, em reconhecimento à luta de Irmã Verônica na procura de recurso para a Associação “Amigos de Palmópolis”. 
A Associação adquiriu ainda uma beneficiadora de arroz, única na região, e outro maquinário de muita utilidade. A ASSOAP também trabalhou muito com mutirões para construção e melhoramentos de casas, alimentação para famílias e pessoas doentes e sem o necessário para sua sobrevivência.
No início de 1983 foi descoberta uma terra devoluta em Dois de Abril, povoado próximo. Lá está a Associação para a conquista da área. Após muita luta, a documentação ficou pronta e a terra passou para as mãos do povo, através de contratos. 
No início de 1985, a Ir. Verônica entrega a presidência da Associação. Confia a grande obra às lideranças leigas, que estão em condições de assumi-la pelas experiências adquiridas. Ela continua, porém, acompanhando a direção da entidade e auxiliando-a em várias grandes obras realizadas através de projetos, como ASSOAP versos FUNDEC e EMATER e ainda, na luta por um 1º médico popular, residente no local, que foi assumido pela Associação

Vida Pastoral na Igreja
No início, além das Vilas, atendíamos mais de 30 comunidades espalhadas em meio aos boqueirões de difícil acesso. Dividimos as responsabilidades entre nós, Irmãs, e, como nós não possuíamos carro, acompanhávamos o Padre, nas visitas mensais ou bimestrais, de Toyota. Eram viagens muito cansativas. Havia comunidades que, para alcança-las , era preciso abrir mais de trinta cancelas ou porteiras pesadas, o que cabia à Irmã, na ida e o mesmo tanto na volta. Eram viagens muito sacrificadas. E nem sempre as idéias do Padre e da Irmã combinavam. Assim, havia também os problemas humanos, que com a graça de Deus, superávamos.. Do outro lado, à alegria e a gratidão eram muito maiores. A festa, a seu modo, com que o povo sempre nos acolhia nos sustentava. Sua fé simples nos edificava e fazia crescer a nossa fé no Deus Pai e Mãe, que olha com carinho e muito amor para o seu povo a caminho.
De dez a quinze dias de cada mês, uma de nós estava quase o tempo todo fora de casa, fazendo o giro pelas comunidades dos povoados e da zona rural. Nelas fazíamos reuniões com lideranças, jovens e crianças, administração dos Sacramentos, ou ainda, atendíamos a alguma outra solicitação do povo ao chegamos na comunidade. Finalmente, a celebração da Eucaristia. Muitas vezes pernoitamos no local para, no dia seguinte, atendermos a outra comunidade nas proximidades, pois era preciso economizar gasolina e tempo em viagens. As famílias nos acolhiam com muito carinho, faziam tudo do bom e do melhor que podiam para nós. Porém, alguma vez o aviso da nossa visita não alcançava a comunidade a tempo e a nossa chegada a pegava de improviso. 
Quando não estávamos nas comunidades do interior reforçávamos a Pastoral na Vila, o Ensino Religioso na Escola Estadual, além de cuidarmos dos afazeres da casa.
Nossa residência em Palmópolis era acolhedora e boa, simples, porém um tanto pequena. Enriquecidas e fortalecidas pelos dons do Espírito Santo, nada abalou a nossa Vida Religiosa.
Quando a Irmã Verônica se cansou das visitas às comunidades rurais, devido à dureza das viagens e sua saúde fraca, entregou-me essa missão toda para que eu, com toda a minha pequenez, a levasse em frente.

Tudo só com grande sacrifício


Em abril de 1987, Ir Verônica despede-se de Palmópolis. Dom José Geraldo, o novo bispo, veio de Almenara para, junto com o Pe. Mariano, celebrar uma Missa para a despedida da Abelhinha, missa campal, pois na igreja, que aliás, é bem grande, o povo não caberia com certeza. Foi-lhe demonstrada muita gratidão através de falas, mensagens e salva de palmas. Até hoje, ela é muito lembrada pelo bem que fez através da ASSOAP, em especial pela conquista da terra para plantar.

Passamos por muitas dificuldades


Quando muitas vezes não conseguíamos chegar com o carro devido às chuvas, estradas péssimas e interditadas, atravessávamos morros, águas, lamas e caminhávamos longos trechos a pés, levando até duas horas para chegar no local do nosso compromisso Pastoral marcado, onde o povo nos aguardava. Sentíamos muito de perto a vida real daquela gente, abandonados pelas autoridades, sem estradas transitáveis, principalmente em tempos de chuvas. Nessas caminhadas, às vezes, os insetos-parasitas, tomavam conta de nós a ponto de nos causar febre. Foi assim que Deus me permitiu experimentar toda minha fragilidade física e intelectual. Mas, “Tudo posso naquele que me conforta”.. 
Não poucas vezes os doentes eram levados a quilômetros de distância, num lençol com as extremidades presas a um pau de madeira, carregado nos ombros de duas pessoas, até chegar a um local de acesso a uma condução que possa transporta-lo. Do contrário, morre à míngua no sertão. Nessas viagens fazíamos muitos consertos de: “mata-burros,” pontes pequenas, estivas, e outros, a fim de podermos seguir a viagem. De enxadão no carro, já íamos prevenid@s para tanto. Muitas vezes nos reuníamos dentro da casa de uma das famílias, se no local não havia escola, ou debaixo das árvores, cúpula natural ornada maravilhosamente pelo Criador. As salas das moradia eram, em geral, muito pequenas e normalmente nem capela havia no local. Porém, as pessoas ali reunidas eram o mais importante para nós.“O vosso Pai sabe de que precisais”. 
Querendo que em mim se realizasse a vontade de Deus, sempre ficava atenda a fim de descobri-la, com uma fé muito simples e concreta. Uma tal disposição se reforçou em mim, ao conhecer a vida de Padre Arnaldo e de Madre Maria. Forte também para mim foi o testemunho do povo: “Deus quis assim” é sua força sustentadora nas horas mais difíceis e angustiantes, embora muitas vezes questionável, pois nem tudo é a vontade de Deus. 
Em Palmópolis fazíamos encontros maiores para formação de catequistas e outros encontros com todas as lideranças, encontros setoriais, assembléias, muitas vezes com assessoria de fora. A nossa vida nessa missão foi cheia de conquistas, pequenas e maiores. Não faltaram também os fracassos. O importante foi a luta com fé e sem esperar recompensas, pois a missão é de Deus e para Deus, que está presente em cada ação e em cada pessoa. 
Depois de muita dedicação, o Padre José teve que deixar o trabalho, á que sua saúde frágil o exigia. Tinha que dispensar muita força naquele trabalho tão árduo. Para substituí-lo chegou o Pe. Mariano Piwowar, também SVD. Assim constantemente havia troca de pastor, cada um com seu modo de trabalhar diferente, ao qual o povo e nós tínhamos que nos adaptar.
Com padre Mariano, eu não precisava mais ir até Rubim. Ele já vinha com a condução e nós o acompanhávamos às comunidades. Continuou com o mesmo sistema atendendo também as Pastorais na zona rural. 
O Padre e nós, Irmãs,viajamos junt@s, até que herdamos o fusquinha da nossa Comunidade de Rubim. Ir. Elizabeth foi transferida e não o levou consigo. Com nossa própria condução, tornamo-nos mais independentes. O Padre assumiu atender as comunidades junto com as lideranças de Rio do Prado, então a sede da Paróquia, enquanto que nós iríamos às comunidades, para nosso trabalho específico, em ocasiões diferentes.

Fé e vida, oração e ação.

 
Nesse trabalho nem sempre nos sentíamos livres, pois um grupo ferrado nas tradições, preocupado em que não houvesse subversão, sentia-se não raras vezes atingido, ainda que fosse só pela leitura do Evangelho. Não sei se de boa ou má fé, procurava com finura, para vantagens próprias, atrapalhar o que se tentava construir.Tínhamos alguma força a mais, devido a muitos encontros e cursinhos bíblicos em nível diocesano, com boas assessorias, que iluminaram a nossa prática pastoral. Eu levantava de madrugada, ainda escuro, enchia o fusquinha de agentes da pastoral, leigas e leigos, e partíamos rumo à sede da diocese, levando em média três horas de viagem, a fim de participar dos cursos e depois, na medida do possível, os repassávamos nos setores da nossa área de trabalho. Muito nos ajudou o material do Centro de Estudos Bíblicos - CEBI, com sua leitura bíblica a partir da ótica dos pobres, o que abre a mente para a realidade opressora. Foi o que nos deu incentivo à luta e á nossa doação para a libertação do povo e o novo jeito de ser Igreja. Isso, claro, às vezes incomodada algumas pessoas, pois trazia idéias e raciocínios que julgaram indesejáveis, no seio das comunidades. Entre os pobres havia o medo de perder o trabalho, a rocinha, o pouco que possuíam. O pobre vive constantemente diante de uma faca de dois gumes.
Na região em si havia muita violência, a matança era constante. Corpos jovens e de pais de família amanheciam frios nas praças e ruas da cidade; ensangüentados. Imagens que não se apagam! 
Trabalhávamos unidos, os membros da Igreja e os da ASSOAP. Foi nesse contexto que nasceu em boas mãos também o Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR), no início dirigido por uma mulher, dona Zelita Gomes, uma voluntária de muita doação na comunidade. Fizemos parceria viajando em equipe e, juntos, levávamos mensagens Pastorais e Sociais.Trabalhamos muito na formação das lideranças e constatamos que sempre a mulher é que mais assume a frente do pastoreio, tanto nas comunidades como nos grupos. Ela é a pioneira em todas as Pastorais. 
Ultimamente o povo das comunidades rurais foi diminuindo devido ao êxodo rural. As famílias se mudavam preocupadas em dar estudo a seus filhos e filhas. Muitas vezes a mãe ficava na cidade ou no povoado com os filhos e o pai continuava na roça. Somente nos fins de semana a família se encontra. Participei também de equipe diocesana da Comissão Pastoral da Terra-CPT, o que me deu oportunidade de participar também de muitos encontros sobre a questão da terra, inclusive em nível regional, o que abrangia várias dioceses. Nesse sentido também ministramos cursinhos com a Dra. Eva Gonçalves à frente, advogada formada, que se doou como voluntária durante uns sete anos em Palmópolis e que dizia ter-se casado com o povo. 
Vivemos de perto a vida desses assentados que moravam em barracos mal fechados no meio da mata, sem a mínima infra-estrutura e água, só com muita dificuldade. À noite, após a sessão de piadas ou cantorias caipiras, todo mundo se acomodava, cada um do seu jeito. Então começava o bailar dos pernilongos e de outros bichinhos da noite que também tomavam sua vez e seus direitos. Um dia visitamos uma família recém chegada. A mulher encontrava se passando a noite só com seus dois filhinhos de pouca idade, num barraco coberto apenas com algumas folhas de palmeiras, com paredes mal fechadas também com umas folhas de palmeiras, sem portas, na mata fechada. O marido havia saído para buscar o resto das coisinhas da mudança, que trazia nos ombros Apenas algumas árvores tinham sido cortadas para dar início ao primeiro plantio da sobrevivência. Não se via mais ninguém morando por perto.. A mãe estava cozinhando apenas uma mandioca que haviam levado, a única coisa que tinham para comer, e ainda fez questão de convidar-nos a comer com eles 
Nessas viagens, entre as poucas matas que ainda existiam e as estradas desertas, passamos às vezes muito medo de possíveis capangas, que nos poderiam surpreender.

Unir Fé e Vida


Acostumados a unir fé e vida, os membros da ASSOAP, estavam passando por dificuldades com relação a liderança que ajudasse a conduzir a obra. De nossa parte, havia sempre a preocupação de agirmos não só no plano espiritual, como também no social, onde a vida clama por ajuda ou está sendo ameaçada. Por essa causa, apesar dos trabalhos Pastorais nas Comunidades e na Escola, depois de ter conversado com o Conselho, achei por bem atender ao seu pedido da Associação de participar de sua diretoria.. Assim, diante de mais esse apelo do Senhor, eu respondi: “Aqui estou!” Assumi por um ano a direção da ASSOAP, porém, uma vez assumido, foi difícil sair. Fiquei cinco anos coordenando os seus trabalhos juntamente com os outros membros da diretoria. Ao todo, por mais de dez anos fiz parte integrante da direção dessa associação, ajudando-a a crescer, apoiando suas lideranças em suas decisões, caminhando com elas. Apesar das muitas ajudas financeiras da nossa Congregação, foi necessário manter constante contato e participar em muitos encontros, como os da UNICEF e da UNIVALE, promovidos por um deputado federal, que muito ajudou a obra. Tivemos de procurar ajuda de deputados estaduais a fim de mantê-la com todo o seu patrimônio. Estes, como também os funcionários da EMATER e da FUNDEC vinham nos visitar para filmar, conhecer e fiscalizar, a fim de conhecer os nossos trabalhos, sempre com muito apreço, pois a ASSOAP era reconhecida em toda a região. Foi um tempo de grande luta. Além das terras, continuamos manter a “Creche Abelhinha”, com uma pequena ajuda da LBA, que também vinha com muitas exigências e com muitos encontros aos quais tínhamos que participar. A creche matriculava todos os anos 120 crianças das mais necessitadas. Parece que, até hoje estou sentindo essas crianças, carentes de comida, afeto e carinho; vendo-as correr ao meu encontro, sem cerimônia, tumultuadas, abraçando-me e agarrando-se à minha saia, estendendo suas mãozinhas e pedindo “A benção Irmã!”. Isso quando eu fazia minha visita à creche ou levava bacias grandes cheias de verduras fresquinhas, que buscava com o fusquinha nas roças da Associação. De suas vozes infantis vibravam cânticos de saudação e gratidão, ensinados pelas monitoras, pois recebiam além de alimentação sadia, também orientações pedagógicas, socais humanas e sanitárias. Quando iniciavam a escola, sobressaiam-se, pois já tinham um bom aprendizado. 
Pelas terras da Associação, eu andava muito e via quanta fartura saia dela para a panela do povo. Ao anoitecer, como uma carreira de formigas com o seu feixe, saco cheio de produtos colhidos, na cabeça, vinham pelos trilhos em direção à estrada. Não sei como agüentavam caminhar com aquele peso todo, até três quilômetros ou mais, a pé, para chegar à sua moradia na vila, onde gostavam de morar pelo fato de estarem próximo da escola para os filhos e filhas, a fim terem um futuro melhor do que eles próprios tiveram, aprendendo a ler e escrever. Às vezes, na madrugada, fazia o meu cozido na panelinha, que enrolava numa folha de jornal, para não esfriar de todo e ia come-lo com os trabalhadores da roça. Lá, completava meu almoço com algumas folhas de verduras de lá mesmo. Descansava um pouco, como el@s o faziam, depois pegava de novo na minha enxada e me afundava na lavoura para ajudar, orientando o pessoal a fazer horta para a creche, preparar o brejo para o arroz, que dava o suficiente, com sobra, para as mais de cem crianças. Fizemos um grande mutirão para limpar o brejo para então dividi-lo em quadras. Ao dividi-lo, lá estive eu afundando-me, às vezes até quase aos joelhos, fazendo os cálculos para que o tamanho de todas as quadras fossem iguais, a fim de distribuí-las depois a mais de trinta famílias. Passava assim o dia respirando o ar puro da natureza, banhada em calor, suor e sol intenso.
Eu trilhava por cada canto dessas terras, que conhecia de ponta a ponta, para verificar as reclamações e problemas de seus cultivadores a afim de discuti-los e resolvê-los depois com a diretoria.
As decisões maiores da ASSOAP eram tiradas em Assembléias ordinárias ou, se preciso, em extraordinárias, sempre com aproximadamente duzentos representantes dos usuários das terras.
Não raras vezes colocava-me diante de Deus, invocava-O como Grande Amigo, com essa exclamação: “Você sempre me ajudou, como não iria ajudar-me agora?” Isso fazia tão confiante que não me restava dúvida de que tudo iria correr bem. Posso disser que sempre pude contar com Ele, com a sua presença atuante e que, muitas vezes, não me sentia digna para tanto.
No início de 1995, entreguei a diretoria da Associação. Fui participar durante seis semanas do CERNI LIX, em Salvador, refazendo assim minhas forças junto às maravilhas do litoral baiano.

Um marco doloroso 


Doloroso foi ver, após eu ter deixado a direção da associação, a creche fechar. Após muitos anos de bom funcionamento e sem problemas legais; devido a uma manobra astuciosa que o presidente da época desconhecia, por parte de políticos mal intencionados, de coração de pedra. Quando se deu conta da situação era tarde demais. 
Apesar de todas as dificuldades, sempre há momentos de alegria, descontração e satisfação. Como reconhecimento e valorização dos nossos trabalhos, no final de 1998, o povo fez uma grande homenagem de HONRA AO MÉRITO para nós, intimando a presença da Ir. Verônica, que foi de Goiânia para o evento. 
Nossos trabalhos sociais não dependíamos da Igreja, porém as lideranças pertencerem à mesma comunidade, assim, nós Irmãs tínhamos um campo imenso aberto para aplicar o Evangelho à Vida. Dessa maneira muitas vezes nos sobrecarregamos de trabalhos; além de ainda zelamos pela nossa Vida Religiosa Consagrada, que também tem suas exigências e tarefas a cumprir. 
A liturgia era preparada semanalmente durante muito tempo, com aprofundamento, avaliação e preparação para as celebrações. Dinamizei muitos grupos de reflexão bíblica e de novenas, grupos de famílias, tanto na cidade como na zona rural. Atingíamos até mais de cinqüenta grupos ocasionais e mais de trinta com reflexões semanais constantes. Sem contar que nesse tipo de trabalho, a pastora ou o pastor precisa estar sempre atenta aos novos apelos e imprevistos que surgem a toda hora.
Nos últimos tempos, depois que Palmópolis foi emancipada, foram surgindo muitos outros grupos na pastoral e nos movimentos sociais em favor da vida. O povo foi se organizando e eu, no sentido de apoio e reconhecimento, fui participando. Surgiram Movimento de mulheres, de preservação do meio ambiente, os Fóruns do Farol do desenvolvimento, pela SUDENE e ainda outras programações de desenvolvimento local, municipal e da sociedade em geral. Eu gostava de estar no meio do povo quando se promovia a Pessoa Humana ou mesmo como protesto contra os deslizes públicos e políticos.
Como é de práxis em todos os lugares, a vida política foi se intensificando, a corrupção e a falda de honestidade, se intensificando. Lamentavelmente, pessoas de bom caráter e conscientes dificilmente se elegem para ocupar os governos. Assim, em diversas ocasiões fui procurada, chamada em reuniões por pessoas de boa fé, que suplicavam pedindo que eu me candidatasse para concorrer às eleições para a direção da Prefeitura. E foi difícil negar, pois os argumentos que colocavam atingiam até a minha consciência. Mas, de outro lado, por prudência não pude atender às boas intenção e vontade de um futuro mais promissor. Nos tempos em que reinava a politicagem, acontecia muita divisão entre as famílias, o que também atingia fortemente os trabalhos pastorais.

Metodologia e Objetivo


A metodologia principal do meu apostolado, a mais eficaz, foi sempre o contato pessoal. Com ele foi-me possível entrar na vida das pessoas, compreendê-las e amá-las. Essas relações, contato e intercâmbio pessoais, falavam mais alto do que qualquer pregação. A escuta “coração a coração”, esconde o segredo da eficácia. “Só uma coisa é verdadeiramente importante: Maria escolheu a melhor parte”, Maria escutou Jesus. E Ele impregnou sua vida de amor incondicional, que só Ele pode dar. 
Há um objetivo importante na minha vida Religiosa e de apostolado, que é o de cumprir o meu dever, de acordo com a vontade de Deus. Cumprir o dever do momento e do melhor modo possível, seja pequeno ou grande, não importa. Uma vez que me foi designada uma tarefa, o importante para mim é cumpri-la, dentro dos meus limites. Quero ser fiel mesmo da forma mais simples. A simplicidade, a transparência, a veracidade, a honestidade, a sinceridade, foram coisas que sempre me deram segurança. Acredito firmemente que Ele age em mim, sinto-me instrumento em suas mãos, não como merecedora, mas porque pertenço a Deus. Por isso a preocupação em conhecer a Sua santa vontade. Lá no fundo do meu ser muitas vezes soava a o canto ”O meu alimento consiste em fazer a vontade daquele que me enviou.”.
Minha despedida 
Em fevereiro de 2003, com vinte anos de serviço na região, aos poucos, vou me despedindo. Isso não foi tão fácil, pois já estava com as raízes profundas no local, como a árvore à beira rio. 
Aos poucos, fui me despedindo das comunidades rurais, visitando uma por uma, (ainda no mesmo fusquinha, em fase de se “aposentar”), que se surpreenderam e se lamentaram pela minha saída. Diziam alguns, que a única pessoa que se lembrava deles, ia até eles levando também outras pessoas, agora ia embora. Procurei dar-lhes a esperança de que as outras Irmãs iriam se lembrar deles também. Mesmo assim, muitas lágrimas foram derramadas e manifestações de agradecimento me foram dirigidas. O pouco que se faz aos pequenos, para eles representa muito.
O dia foi se aproximando e, enquanto vou ajeitando tudo, sem que eu o percebesse, preparam uma grande despedida para mim. Na véspera do dia 14, à noite, a Ir. Ilma, que estava a par de tudo, foi me prevenindo, de certa maneira, sobre o fato. Quando me chamaram, o salão da ASSOAP estava repleto de pessoas, tive dificuldades para entrar, enquanto os flashes vinham em cima de mim de todos os lados. Fizeram-me subir ao palco para as homenagens, que duraram mais de duas horas. Havia faixas com dizeres, presentes, declarações em versos e mensagens, coroaram - me duas vezes. Uma das mulheres disse: “É preciso que nós a coroemos na vida, porque depois da morte não dá mais para a gente fazê-lo”. Havia momentos em que eu não sabia se dava atenção ao que me era dirigido ou às pessoas que invadiam o palco, abraçando-me e entregando flores, das mais simples às mais vistosas. Vi em cada pétala um imenso carinho dessas pessoas tão simples e boas, de coração puro e cristalino, que é impossível expressar com palavras. Palmas e lágrimas se misturaram. No dia seguinte, veio de Almenara o Bispo para celebrar a Missa em Ação de Graças.


Gratidão


Queremos reconhecer a bondade de Deus por permitir que vivêssemos todos aqueles anos para exaltar a grandeza do seu amor e misericórdia infinita, em meio a um povo que acreditamos, prediletos de Deus, “radares” de alta sensibilidade e sentir com ele a moção do Espírito, conectando-nos com Suas Luzes, em meio às árduas tarefas.

Irmã Giselda Kerbere Verônica Paganini, SSpS - pertence a Província Brasil Norte
maio /2006

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