DÉCIMO QUINTO DOMINGO COMUM (12.07.16)

“Vá, e faça a mesma coisa” - Lucas 10,25-37

A parábola do “Bom Samaritano” talvez seja, junto com a do “Filho Pródigo”, a mais conhecida de todas as parábolas de Jesus.  Por isso mesmo corre o risco de ser banalizada, de não ser levada muito a sério, de ser relegada quase ao nível de folclore religioso.  Merece uma atenção mais minuciosa.

A parábola situa-se logo após Jesus ter louvado o Pai por ter “escondido essas coisas ( as coisas do Reino) aos sábios e inteligentes e revelado aos pequeninos” (cf. Lc 10 ,21).  Realmente, o primeiro a tentar atrapalhar Jesus é um “sábio e inteligente” - um especialista em leis.  Lucas salienta que ele fez a pergunta “O que devo fazer para receber em herança a vida eterna” (v. 25), não porque ele se interessasse pela verdade, mas “para tentar Jesus”.  Devolvendo-lhe a pergunta, Jesus deixa claro que o legista já sabia a resposta: “Ame o Senhor, seu Deus, como todo o seu coração, com toda a sua alma, como toda a sua força e com toda a sua mente; e ao seu próximo como a si mesmo.” Jesus simplesmente diz: “Você respondeu certo.  Faça isso e viverá”( v 28)

 Mas com a petulância típica do pseudo-intelectual, ele insiste, “para se justificar”, com uma segunda pergunta: E quem é o meu próximo?” (v29).  Jesus porém não cai na cilada de fazer uma discussão teórica e estéril sobre quem seja o próximo - ele logo traz o debate para o nível prático da vivência.  Ele conta a parábola do “Bom Samaritano”. Vejamos.

Depois do assalto, passou pela vítima um sacerdote que “viu o homem e passou adiante pelo outro lado” ( v.31) .  A mesma coisa aconteceu com um levita.  Porque será que esses homens - ligados ao culto judaico - agiram assim?  A resposta está nas leis de pureza daquela época.  O contato com um defunto, ou com sangue, deixava a pessoa ritualmente impura, isso é, inapta para participar do culto.  Como o homem estava coberto de sangue, e talvez morto, os dois não se arriscavam a tocar nele, pois para eles o culto religioso era mais importante do que a misericórdia para com uma pessoa sofrida. Não era, em si, uma atitude somente pessoal de duas pessoas maldosas, mas demonstra uma tentação permanente de pessoas ligadas ao culto e o mundo tido como “sagrado”- o perigo de viver alienadas do mundo real, onde as pessoas vivem, sofrem, e lutam todos os dias.  Também é bom notar que ambos estavam seguindo o mesmo caminho – voltando de Jerusalém, ou seja, voltando do lugar principal do culto.  Assim Jesus enfatiza que, embora participassem corretamente do culto, não deixaram que o mesmo tivesse efeito sobre o seu comportamento, pois se fecharam diante do sofrimento do ferido.  Culto sem misericórdia é vazio, com bradava Oséias e Amós séculos antes (Os 6,6; Am 5, 21-25).

Entra em cena um samaritano.  A religião dele era considerada como cheia de deformações e ignorância pelo judaísmo oficial, pois desde a invasão da Assíria em 721 a.C. a prática religiosa do povo samaritano tinha sido contaminada por religiões pagãs (cf. II Rs 17,24-31).  Mas quando ele vê o sofrimento alheio, ele não pensa em discussões teológicas sobre pureza, mas parte para uma ajuda prática, com misericórdia.

Terminando a história, Jesus devolve a pergunta ao especialista em leis - mas faz uma mudança fundamental!  Não faz a pergunta teórica quem é o meu próximo”, mas uma pergunta prática “quem se fez próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” A primeira pergunta só levaria a uma discussão vazia; a de Jesus leva a uma mudança de prática vivencial.

Forçado a reconhecer que quem se fez próximo do sofredor era o samaritano, o legista ouviu da boca de Jesus a conclusão:Vá e faça  a mesma coisa”( v. 37).

Com esta parábola, Jesus quer ensinar que nada, nem o culto, tem prioridade sobre a ajuda a uma pessoa necessitada.  A religião de Jesus não é teoria, é prática de misericórdia, pois Deus é misericordioso.  Como diz o Evangelho de Mateus, baseando-se em Oséias 6,6: “Aprendam, pois, o que significa: “Eu quero a misericórdia e não o sacrifício”.  Por que eu não vim chamar justos, e sim pecadores”( Mt 9,13).  O legista já sabia a orientação da Escritura, mas tentava escapar das suas conseqüências, criando discussões inúteis.  Nós também sabemos o que diz a Bíblia, -  não tentemos esvaziá-la com debates estéreis sobre quem é “o pobre”, “o aflito”, “o próximo”, “o bom”.  Façamos o que Jesus ensina nesta parábola “e viveremos”.

Pe. Tomaz Hughes SVD

e-mail: thughes@netpar.com.br

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