Maria Ruth Christian

Eu sou austríaca, de Grossarl, uma pequena cidade interiorana, nos Alpes do  estado de Salzburgo. Tenho três irmãs e quatro irmãos, sendo que o mais  velho faleceu em 1958, quando eu tinha 15 anos de idade. Sou a quinta  dos oito filhos. O irmão dois anos mais velho que eu é sacerdote e está hoje em Mação, China. Sendo que a minha irmã depois de mim é quatro anos mais nova, briguei e  brinquei mais com esse irmão e sua "galera".

Meu avô não era natural de Grossarl, mas conseguiu integrar-se bem  naquela comunidade, certamente com a ajuda da esposa que eu não conheci, mas que deixou fama de ter sido muito generosa e  sábia, diziam mesmo, santa. E à sua moda era também contestadora. Um dia uma mulher abriu-se com ela, contando-lhe suas  mágoas a respeito do marido. Ao que minha avó  respondeu: "Solange der Herrgott ein Mannsbild ist, haben wir Frauen  nichts besseres zu erwarten - Enquanto Deus é visto como macho, nós,  mulheres, não temos nada melhor a esperar”. Que intuição feminista desta mulher!

Meu pai já nasceu em Grossarl. Aprendeu a profissão de  marceneiro, mas depois herdou a loja que meu avô adquiriu, um tipo  armazém onde se compra de tudo. Minha mãe é a filha mais nova de um  camponês de Grossarl, um Bergbauer.

A minha mãe estava sempre na loja; durante a semana, de segunda a sexta, estava conosco quase só às refeições e à noite. Eu, durante o dia, quando não estava na escola, ficava mais na rua do que em casa. Na ‘rua’ no  interior significava brincar com amig@s fora, ou na casa de alguma delas. O mundo era nosso!

Papai cuidava do abastecimento da loja e da contabilidade. Meus pais compreendiam, de fato, seu trabalho como Kundendienst, isto é, serviço aos fregueses. Nesse sentido aprendi muito com eles.

Meu pai também estava envolvido com serviços à comunidade. Participou da banda de música, do corpo voluntário de bombeiros, da comissão de água e  esgoto, foi vereador, vice-prefeito e por alguns anos até prefeito. Era membro do partido popular (tradicional, católico). Entretanto, uma vez ouvi um socialista (bem de esquerda) apresentá-lo a um visitante de fora: "Ele é muito equilibrado; contamos com sua compreensão e apoio". Dizem que por esse motivo, os conservadores não quiseram reelegê-lo como prefeito.

Nasci durante a segunda guerra mundial. Meu pai foi para a guerra em 1939 e eu nasci em 1943. A grande felicidade de terem meu pai em casa durante umas férias converteu-se em maior preocupação quando minha mãe deu-se conta  de que ficara grávida. Era mais um filho, no caso uma filha, sem saber com certeza se papai voltaria e se seria ele o herdeiro da loja ou seu irmão gêmeo. Como gente de  fé, confiaram ao bom Deus a criança que iria nascer. Mais tarde, quando meu  pai soube que eu queria ser religiosa missionária, reagiu mais ou  menos assim: "Na hora do aperto, nós a confiamos a Deus. Como podemos agora negar, se Ele a quer para si"?

Como minha vocação se desenvolveu

Lembro, neste sentido, de duas coisas que me marcaram. A primeira foi a história, real ou não, que li na minha infância, sobre uma mãe mutilou sua criança que era muito bonita, pois ela achava que os deuses poderiam ter ciúmes dela. – “Como são pobres os que não conhecem o amor de Deus!” conclui. A segunda marca foi  a morte do meu irmão mais velho. Ele morreu inesperadamente de uma doença traiçoeira. Eu tinha então meus 15 anos. Em meio à dor da perda lembrei-me daqueles que não têm esperança de uma vida maior. Por isso, tive sempre grande interesse pelas missões. Ajudava nas coletas pelos missionários; pensei em pagar a formação e ajudar no sustento de catequistas, mas dentro de mim foi surgindo com crescente força um apelo: ‘Porque você quer pagar outros para fazer esse serviço; dê mais do que dinheiro: vá você mesma!’

Quem disse que eu teria coragem de abandonar meus sonhos de casar-me e ter filhos? Novamente, foi uma historia que me inquietou. Desta vez, a história de uma enfermeira que se dedicava com muito amor aos soldados feridos a ponto de se esquecer de si mesma. E a autora da historia acrescentou: “Quanta coragem deve ter quem sinceramente reza: ‘Senhor, ascendei em mim o fogo de vosso amor’!. De fato, eu não sentia tanta coragem em mim, até que um dia, observando as pessoas, descobri que quem tem amor parece não sentir o peso daquilo que deixa, faz e suporta pelos que ama.

Finalmente decidi tornar-me missionária. Queria juntar-me a outras que têm o mesmo ideal, a um grupo que alimenta e forma esse espírito e disposição e, como corpo ou comunidade, realiza a missão. As congregações religiosas que eu conhecia não me pareciam corresponder a essa expectativa. Pedi muito a Deus que me desse  uma dica e fui consultar um Padre que conhecia muitas congregações. Tendo me ouvido e sabendo que meu irmão estava para entrar na Congregação do Verbo Divino, ele me falou das Missionárias Servas do Espírito Santo que são da mesma família religiosa e têm um bom espírito. - “Serva do Espírito Santo”, isso teve eco em mim, um melhor patrão eu não poderia ter. Sim, eu queria tornar-me serva do Espírito divino que é amor e dinamismo na Igreja e em toda criação. Na Paróquia rezávamos na época pedindo um novo Pentecostes preparando-nos para o Concílio Vaticano II.

Tinha 19 anos quando, em setembro de 1962 entrei na Congregação e até 1965, num tempo de novos ventos e muita esperança, fiz minha formação inicial na vida religiosa, em Stockerau, perto de Viena. Logo que emiti os primeiros votos fui estudar na ‘Casa Mãe “em Steyl, Holanda. Fui a contragosto, pois me faltava paciência para um estudo ainda sem definição profissional. Fiquei por cinco longos anos estudando, achei muito chato, mas persisti. Era então “Bacharel”, apta para entrar na Universidade. Como me destaquei em matemática, queriam que eu fosse professora, precisavam de professoras dessa matéria. Isso não me agradava, eu queria ser missionária entre os pobres, entre o povo. Então me perguntaram se eu queria ser missionária no Brasil, o que me surpreendeu, por ser o Brasil um país católico. Como me deram tempo para responder, fui pesquisar em tudo quanto é revista católica e observei que todas falavam da América Latina; descobri que o Papa João XXIII falava com preocupação e esperança sobre a América Latina; descobri, sobretudo, Medellín (1ª Congresso da Conferência dos Bispos da América Latina): a opção pelos pobres, as comunidades eclesiais de base, a Igreja Povo. Então me entusiasmei, ‘podem me mandar’!

Meio ano depois, em 02/07/1971, ao desembarcar em São Paulo, ainda no caminho para a minha nova residência, falaram-me de escolas, da necessidade de professoras, o que me abateu muito.  Mal sabia falar português, fiquei por dois meses com nossas Irmãs em São Francisco, interior de São Paulo. Gostei muito de viver no meio do povo, numa casa pequena. Lá as irmãs levavam uma vida ‘normal’, com outro relacionamento.

Depois de revalidar os cursos feitos na Europa, pediram-me para fazer Pedagogia. Eu não queria, queria fazer Serviço Social, mas isso seria perigoso, pois era tempo de repressão. No tempo pós-conciliar começaram a sugerir o estudo de teologia também para Irmãs. Sempre me interessei por questões de filosofia e teologia, mas eu não queria ser teórica, sou mais voltada para a prática e convencida de que mãos e atitudes às vezes dizem mais do que palavras. Quando estive no Rio de Janeiro, insistiram novamente para eu fazer pedagogia. Às vésperas de fazer matrícula, durante o café da manhã, comentei com as irmãs que durante o noviciado eu tinha feito estágio em hospital, com plantão noturno no natal e que gostei. Seria eu uma boa Enfermeira? Irmã Felicidade percebeu minha angustia. Ela sabiamente entendeu que gostar é sinal de vocação e questionou a decisão tomada.  Então fiquei sabendo que queriam me prepara para ser formadora. Respondi que a gente não aprende a ser formadora, tem que estar feliz.

Finalmente, nos anos 1973 a 1977, fiz Enfermagem, com habilitação para Saúde Pública, na PUC de Belo Horizonte, enquanto trabalhava como Auxiliar de Enfermagem na Santa Casa de Misericórdia. Durante as férias fiz estágios no Vale do Jequitinhonha, com nossas irmãs; gostava muito.  Uma vez formada, após uma visita à família, eu queria ir para Rubim, no Vale do Jequitinhonha. Mas, a Província precisava organizar o serviço de enfermagem no hospital São Lucas, em BH. Então eu, recém formada, foi ser chefe das minhas co-irmãs. Meu sonho foi jogado para três anos depois.

Em 1980, por eleição das irmãs, tornei-me assistente provincial; para esse serviço interno fiquei no Convento, em São Paulo. Após os três anos, fui coordenadora da comunidade por dois triênios. Felizmente podia acompanhar as noviças na pastoral e nas missões de férias, o que foi meu alento.

A questão que se colocava era sempre essa: de dentro vem um chamado e a congregação me pede outra coisa; onde estará a voz de Deus? Ouvia várias Irmãs idosas queixarem-se de que também elas desejaram ser uma coisa e tiveram que fazer outra. Decidi continuar a obedecer, porém falar mais; cheguei a pedir para ir à África. Aí as responsáveis entenderam. 1989 fui para Goiânia viver na inserção, no meio do povo, num assentamento urbano. Em Goiânia, também trabalhei no setor de hemodiálise da Santa Casa. Então fiz experiência de ver o sofrimento das pessoas e de levar uma vida de mulher trabalhadora, de ir e voltar para casa pegando 3 conduções.

Depois veio o chamado para os Yanomami. Numa assembléia latinoamericana das irmãs SSpS inseridas nos meios populares, em Goiânia, ficou decido que iríamos assumir com mais expressão a missão junto aos povos indígenas. Era chegada a minha hora. Durante quase uma década junto aos Yanomami, no meio da mata, me senti em meu lugar. Foi um período difícil, pois muitos indígenas estavam doentes, sem roça, sem força para caçar; havia muitas mortes; uma miséria, em lugar de festa; não tinham casa, pois quando  alguém morre abandonam a casa (casa grande, redonda, uma só por comunidade, onde cada família se instala em um canto ao redor da área central). A colheita só veio dois anos depois e com ela, alegria e festa.

Era também exaustivo porque as malocas ficam a certa distância umas das outras; caminhávamos uma, duas horas até seis horas ou mais. Vinha o cansaço, mas, também a alegria de chegar e poder ajudar. Havia muitos doentes tremendo de febre, vítimas da malária. As compensações eram estar com eles, descansar numa rede ao lado do fogo aquecedor e observar, através da cobertura das árvores, as estrelinhas. É bonita a vida dos Yanomami! Como se alegram com pouca coisa; as mulheres gostam de se enfeitar. Eu, acostumada aos Alpes, ficava tranqüilamente dois meses dentro da mata. Como religiosa, estava lá com todo meu coração, e ainda, apoiada pela Congregação. Outros funcionários ou funcionárias ficavam preocupados com a família, com os filhos; eu não tinha esse problema.

Estive com esse Povo de 1992 a 2001, foram quase 10 anos. Saí por problemas de saúde, mas não só por isso. Alguns religiosos e leigos da diocese não queriam mais trabalhar com a Urihi (Nossa Mata), uma ONG que se originou da experiente Associação Pró-Yanomami e manteve contrato com a FUNASA (Órgão do Governo). Nós éramos funcionárias da Urihi. Fui convidada a integrar uma nova organização, mas não aceitei, porque já não seria mais para estar no meio do povo Yanomami. Além disso, a Província me chamava, diziam que eu precisava me cuidar e que eu ainda podia fazer muito.

Voltei e, em São Paulo, fiz um curso de dois meses no CESEP  - Centro Ecumênico a Serviço à Educação Popular -  para me atualizar na pastoral urbana. Do desgaste geral da minha saúde comecei logo a me recuperar, porém, quando depois do curso retomei o tratamento da Leshmaniose tegumentar, esse tratamento quase me derrubou.

Em 2002 comecei a fazer parte da equipe de formação da província. Nos fins de 2008, quando foi apresentado o projeto de uma missão no Equador,  para a qual procuram Irmãs, alguma coisa mexeu muito comigo: a proposta de um trabalho em equipe junto com Padres do Verbo Divino e com leigos me deu ânimo e coragem; vou aprender; precisam também quem trabalhe na área da saúde. Apresentei-me, mas entenderam que não seria para mim. Novamente surgiu a questão: obedecer à voz de dentro ou de fora?  Passou um ano e os apelos de “dentro e fora” convergiram: precisam de mim. Vou com muito gosto!

Concluindo: O que me move? É o desejo que todas as pessoas tenham uma vida digna e feliz. - Isso é outra coisa do que precisar e ter muitas coisas supérfluas, projeção e poder. - Que tenham o necessário para seu sustento e relações que enriquecem a vida no dar e receber, que possam aprender e crescer humanamente e ter uma esperança que vai além das maiores perdas (uma criança bonita, um irmão, a própria vida). Enfim, é o desejo de partilhar a minha inspiração e esperança que se baseia no conhecimento de Jesus Cristo, comprovada na própria experiência de vida e vida feliz.

Irmã Maria Ruth Christian – Março de 2009

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